Da redução de edemas e equimoses à melhora da cicatrização, a fotobiomodulação vem conquistando espaço como terapia complementar na cirurgia plástica. Entenda os mecanismos biológicos e as evidências científicas por trás dessa tecnologia.
O sucesso de uma cirurgia plástica não depende apenas da técnica cirúrgica. A recuperação dos tecidos, o controle da inflamação, a qualidade da cicatrização e o conforto do paciente também desempenham papéis fundamentais no resultado final.
É justamente nesse cenário que a fotobiomodulação (FBM) vem ganhando relevância.
Por meio da aplicação de luz em comprimentos de onda específicos, a tecnologia é capaz de modular processos biológicos envolvidos na regeneração tecidual, na resposta inflamatória e na reparação celular, sem provocar danos térmicos significativos.
Em artigo publicado na revista científica Facial Plastic Surgery, o cirurgião José A. De Cordova, do Reino Unido, explora o papel da fotobiomodulação no rejuvenescimento facial e na cirurgia plástica, destacando seu potencial como recurso complementar no pré e pós-operatório.
O trabalho, intitulado Role of Photo-Biomodulation Therapy in Facial Rejuvenation and Facial Plastic Surgery, reúne fundamentos biológicos, estudos científicos e experiências clínicas com a tecnologia.
Como a fotobiomodulação atua na recuperação dos tecidos?
Diferentemente de tecnologias que promovem efeitos térmicos ou ablativos, a fotobiomodulação utiliza luz em parâmetros específicos para estimular respostas fotoquímicas intracelulares.
Um dos mecanismos mais estudados envolve a absorção de fótons por cromóforos mitocondriais, especialmente a enzima citocromo c oxidase, associada à cadeia respiratória celular.
Essa interação pode favorecer a atividade mitocondrial, a produção de adenosina trifosfato (ATP) e a ativação de vias de sinalização relacionadas à sobrevivência, proliferação e reparação celular.

Em outras palavras, a FBM atua sobre mecanismos que participam diretamente da recuperação dos tecidos.
O artigo destaca que essa modulação pode contribuir para:
- Redução da resposta inflamatória: favorecendo o equilíbrio dos processos inflamatórios envolvidos na recuperação.
- Estímulo à reparação tecidual: por meio da modulação da atividade celular e dos mecanismos de cicatrização.
- Produção de colágeno: importante para a estrutura e a qualidade da pele.
- Atividade dos fibroblastos: células essenciais para a formação da matriz extracelular.
- Angiogênese: formação de novos vasos sanguíneos, importante para a nutrição e o reparo dos tecidos.
Esses mecanismos fornecem uma base biológica para investigar a FBM como recurso complementar na recuperação pós-cirúrgica.
5 benefícios da fotobiomodulação no pós-operatório de cirurgia plástica
1. Modulação da inflamação e redução do edema
O edema é uma das manifestações mais frequentes após procedimentos cirúrgicos. Embora faça parte da resposta natural do organismo, pode gerar desconforto e influenciar a percepção do paciente sobre sua recuperação.
A fotobiomodulação apresenta propriedades anti-inflamatórias que podem contribuir para a modulação dessa resposta.
No artigo, De Cordova relata sua experiência clínica utilizando LED no pós-operatório de lifting facial, cirurgias palpebrais e procedimentos reconstrutivos com enxertos e retalhos.
Em tradução livre:
“Utilizo pessoalmente essa tecnologia em todos os meus pacientes após lifting facial, cirurgia das pálpebras e enxertos e retalhos reconstrutivos, observando uma redução significativa de equimoses, edema e tempo de recuperação pós-operatória.”
O relato é especialmente relevante por demonstrar a aplicação prática da tecnologia na rotina de um cirurgião plástico facial.
É importante observar, entretanto, que essa descrição corresponde à experiência clínica do autor, e não a uma estimativa de eficácia proveniente de um ensaio clínico controlado.

2. Estímulo à cicatrização e à regeneração tecidual
A cicatrização depende de uma comunicação coordenada entre diferentes tipos celulares.
Fibroblastos, queratinócitos, células inflamatórias e células endoteliais participam de processos que permitem a formação de novos tecidos e o fechamento das feridas.
A FBM pode influenciar essas respostas por meio de mecanismos fotoquímicos que estimulam a atividade celular e a reparação.
O artigo menciona trabalhos que observaram aceleração da cicatrização e maior epitelização no fechamento de feridas relacionadas a enxertos e retalhos.
Esses achados reforçam o interesse pela fotobiomodulação em procedimentos nos quais a qualidade do reparo tecidual é especialmente importante.
3. Potencial melhora na qualidade das cicatrizes
A formação de cicatrizes é uma preocupação frequente tanto para pacientes quanto para cirurgiões.
Embora toda incisão cirúrgica desencadeie um processo natural de reparação, alterações na resposta inflamatória e na remodelação do colágeno podem contribuir para cicatrizes hipertróficas e queloides.
O artigo destaca o possível envolvimento da interleucina-6 (IL-6) nesses processos e apresenta evidências de que a terapia por LED pode modular vias inflamatórias relacionadas à cicatrização.
De Cordova observa, em tradução livre:
“Como a terapia por LED demonstrou reduzir os níveis de RNAm de IL-6, ela pode potencialmente prevenir a cicatrização anormal e promover uma melhor aparência das cicatrizes.”
Além disso, o artigo cita uma investigação de Barolet e Boucher envolvendo três casos de cicatrizes hipertróficas ou queloides.
Nesse trabalho, áreas tratadas com LED infravermelho próximo de 805 nm apresentaram melhorias em comparação com as áreas de controle.
Embora promissores, esses resultados ainda são preliminares e não permitem afirmar que a FBM previne queloides de maneira consistente em todos os pacientes.
4. Potencial redução do desconforto e do tempo de recuperação
A dor, a sensibilidade e o desconforto pós-operatório podem interferir na experiência do paciente durante a recuperação.
O artigo descreve aplicações da fotobiomodulação relacionadas ao alívio da dor e à modulação inflamatória.
Também menciona estudos que observaram melhora do eritema e redução do desconforto após procedimentos dermatológicos realizados com tecnologias de luz.
Na experiência clínica descrita por De Cordova, a utilização da FBM após cirurgias faciais foi associada à redução do tempo de recuperação.
Esses resultados apontam para o potencial da tecnologia como complemento aos cuidados convencionais, embora sejam necessários estudos cirúrgicos controlados para determinar a magnitude desses benefícios.
5. Melhora da qualidade da pele e estímulo ao colágeno
Os benefícios potenciais da fotobiomodulação não se limitam à fase inicial da recuperação.
A tecnologia também vem sendo estudada por seus efeitos sobre a qualidade da pele, especialmente em relação à produção de colágeno, à textura cutânea e ao rejuvenescimento.
O artigo destaca que procedimentos cirúrgicos faciais podem corrigir alterações estruturais relacionadas à gravidade, mas nem sempre conseguem atuar diretamente sobre todas as alterações da qualidade da pele.
Nesse contexto, a FBM pode representar uma abordagem complementar.
Em um estudo multicêntrico citado na publicação, 90 pacientes receberam oito tratamentos com LED durante quatro semanas.
Os resultados mostraram que:
- Mais de 90% dos participantes apresentaram melhora de pelo menos uma categoria na classificação de fotoenvelhecimento de Fitzpatrick.
- 65% demonstraram melhora global em parâmetros como textura facial, linhas finas, eritema e pigmentação.
- Os resultados atingiram seu pico entre quatro e seis meses após o término das sessões.
É importante destacar que esses dados são provenientes de estudos de rejuvenescimento cutâneo, e não de recuperação pós-cirúrgica. Ainda assim, ajudam a demonstrar a amplitude dos efeitos biológicos investigados com a tecnologia.
Aplicações clínicas: lifting facial e blefaroplastia
Um dos aspectos mais interessantes do artigo é a apresentação de aplicações clínicas de fotobiomodulação em pacientes submetidos a cirurgias faciais.
O autor utiliza o Dermalux Tri-Wave MD, equipamento de fototerapia LED apresentado na publicação, para ilustrar sua abordagem terapêutica.
Pós-operatório de lifting facial
Na Figura 4 do artigo, são apresentadas imagens de acompanhamento de uma paciente após lifting facial, nos dias 5, 10 e 20 do pós-operatório.
A paciente recebeu cinco sessões de fotobiomodulação.
As imagens ilustram a evolução clínica durante o período de recuperação, acompanhada da redução visual de manifestações pós-cirúrgicas.
Entretanto, como não há um grupo de comparação apresentado nessa sequência fotográfica, não é possível atribuir toda a evolução observada exclusivamente à FBM.
Pós-operatório de blefaroplastia
A Figura 5 apresenta a evolução de uma paciente cinco dias após uma blefaroplastia bilateral, com duas sessões de fotobiomodulação.
A utilização da tecnologia nesse contexto é particularmente interessante porque a região periocular costuma apresentar edema e equimoses após a cirurgia.
O artigo ilustra a aplicação da FBM como recurso complementar, com o objetivo de favorecer o processo de recuperação tecidual.
Esses exemplos demonstram como a tecnologia pode ser integrada à prática clínica, desde que respeitadas as condições de segurança, a avaliação médica e os protocolos apropriados.
A importância dos comprimentos de onda: 633 nm e 830 nm
Os efeitos da fotobiomodulação dependem de fatores como comprimento de onda, irradiância, dose, duração e frequência das aplicações.
O artigo dedica atenção especial às luzes vermelha e infravermelha próxima.
Luz vermelha — 633 nm
A luz vermelha é amplamente estudada em aplicações relacionadas ao rejuvenescimento cutâneo e à estimulação do colágeno.
Sua interação com os tecidos pode favorecer processos envolvidos na renovação da pele e na modulação inflamatória.
Luz infravermelha próxima — 830 nm
A luz NIR de 830 nm apresenta maior capacidade de penetração tecidual do que comprimentos de onda visíveis mais curtos.
O artigo destaca suas aplicações relacionadas à cicatrização de feridas, ao alívio da dor e ao rejuvenescimento da pele.
Essa característica faz da luz de 830 nm uma das faixas de maior interesse na investigação de aplicações terapêuticas em tecidos mais profundos.
O Dermalux Tri-Wave MD, apresentado no artigo, reúne comprimentos de onda de 415 nm, 633 nm e 830 nm, permitindo diferentes aplicações de fototerapia.
No entanto, a presença desses comprimentos de onda não significa que qualquer combinação ou dose produzirá os mesmos resultados clínicos. A escolha dos parâmetros deve considerar a indicação e as evidências disponíveis.
Fotobiomodulação e cirurgia plástica: uma abordagem complementar
O crescente interesse pela FBM na cirurgia plástica acompanha uma mudança importante na abordagem do cuidado perioperatório.
Além da execução do procedimento cirúrgico, há uma atenção cada vez maior à recuperação dos tecidos, ao conforto do paciente e à qualidade da cicatrização.
A fotobiomodulação se destaca nesse cenário por ser uma modalidade não ablativa e não térmica, com potencial de integração a diferentes estratégias terapêuticas.
Entretanto, a tecnologia não substitui os cuidados pós-operatórios tradicionais, a avaliação médica ou o acompanhamento cirúrgico.
A resposta clínica depende de fatores individuais e dos parâmetros utilizados, e ainda são necessários estudos de maior qualidade metodológica para estabelecer protocolos padronizados e determinar seus benefícios em diferentes procedimentos.
Conclusão: a luz como aliada da recuperação cirúrgica
A fotobiomodulação representa uma abordagem promissora para a cirurgia plástica, especialmente por sua capacidade de interagir com mecanismos biológicos associados à inflamação, à cicatrização e à regeneração dos tecidos.
O artigo de De Cordova reforça o interesse clínico pela tecnologia, reunindo fundamentos científicos e exemplos de sua utilização após lifting facial, blefaroplastia e procedimentos reconstrutivos.
Mais do que uma tecnologia voltada ao rejuvenescimento, a FBM amplia as possibilidades de cuidado com o paciente no período perioperatório.
Na cirurgia plástica, o resultado não termina quando a cirurgia acaba. A recuperação também faz parte do tratamento — e a fotobiomodulação pode ser uma importante aliada nesse processo.
Referência científica
De Cordova, J. A. (2021). Role of Photo-Biomodulation Therapy in Facial Rejuvenation and Facial Plastic Surgery. Facial Plastic Surgery. Thieme.
DOI: https://doi.org/10.1055/s-0041-1722980
Nota científica: O artigo é uma revisão narrativa com exemplos de experiência clínica. Os benefícios apresentados possuem diferentes níveis de evidência e não devem ser interpretados como resultados garantidos para todos os procedimentos cirúrgicos ou equipamentos de fotobiomodulação.

