Fotobiomodulação no Lipedema: o que diz a ciência sobre essa terapia

Entenda como a terapia com luz vermelha e infravermelha atua no tecido adiposo e o que dizem os estudos científicos mais recentes

O lipedema é uma condição crônica que afeta milhões de mulheres e que, até pouco tempo atrás, contava com poucas opções de tratamento respaldadas por evidência científica. Nos últimos anos, a fotobiomodulação passou a ser estudada como uma possível aliada no manejo do lipedema, despertando o interesse de pacientes e profissionais de saúde. Neste artigo, reunimos o que a ciência já sabe (e o que ainda não sabe) sobre a fotobiomodulação aplicada ao lipedema.

Fotobiomodulação lipedema

O que é o lipedema?

O lipedema é uma doença crônica do tecido adiposo, predominantemente em mulheres, caracterizada pelo acúmulo simétrico e desproporcional de gordura nos membros, associado a dor, sensibilidade ao toque e formação fácil de hematomas. Estima-se que cerca de 11% das mulheres adultas possam ser afetadas em algum grau, segundo estimativas da literatura, embora o lipedema ainda seja frequentemente subdiagnosticado e confundido com obesidade comum ou linfedema.

Diferente da obesidade, o lipedema tem fisiopatologia própria: envolve hipertrofia dos adipócitos, dilatação de microvasos sanguíneos e linfáticos, e um estado inflamatório crônico de baixo grau, com aumento de macrófagos no tecido. Por isso, dieta e exercício físico isoladamente costumam ter efeito limitado sobre o acúmulo de gordura característico da condição, o que faz crescer novas abordagens terapêuticas como a fotobiomodulação.

O que é a fotobiomodulação (PBM)?

A fotobiomodulação, também conhecida como terapia a laser de baixa intensidade (LLLT) ou terapia de LED, é o uso terapêutico de luz vermelha e infravermelha próxima para estimular processos biológicos nas células, sem gerar efeito térmico significativo.

De forma simplificada, a luz é absorvida pela citocromo c oxidase, uma enzima presente nas mitocôndrias das células. Essa absorção aumenta a produção de energia celular (ATP) e desencadeia uma série de efeitos em cascata, como a modulação de processos inflamatórios e o estímulo à microcirculação. É justamente esse mecanismo que tem motivado pesquisadores a investigar a fotobiomodulação como uma possível ferramenta no tratamento do lipedema.

Como a fotobiomodulação pode atuar no lipedema

Com base na fisiopatologia do lipedema e nos mecanismos já descritos da fotobiomodulação, os principais efeitos investigados incluem:

  • Modulação anti-inflamatória: redução de mediadores pró-inflamatórios e da atividade macrofágica no tecido irradiado.
  • Ação sobre os adipócitos: estudos preliminares observaram redução do tamanho das células de gordura e aumento da apoptose (morte celular programada) de adipócitos no tecido tratado.
  • Estímulo à microcirculação: efeitos descritos em angiogênese e função endotelial, relevantes diante da fragilidade capilar típica do lipedema.
  • Possível efeito sobre a dor: um dos sintomas mais incapacitantes do lipedema, e um dos desfechos hoje em investigação clínica direta.

O que dizem os estudos científicos sobre fotobiomodulação e lipedema

O estudo piloto que abriu caminho

O estudo mais relevante disponível até o momento é o de Parizotto NA et al. (2025), publicado na revista Lasers in Medical Science, intitulado “Photobiomodulation with IR and RED light acutely applied to lipedema patients: preliminary study with 3 cases”. Diferente de pesquisas anteriores, que extrapolavam dados de linfedema, esse estudo analisou diretamente o tecido adiposo de pacientes com lipedema.

Três mulheres que seriam submetidas à dermolipectomia receberam LED vermelho e infravermelho em apenas um lado do corpo, três a quatro horas antes da cirurgia, enquanto o lado contralateral serviu como controle sem irradiação. O tecido removido foi então analisado por histologia e imuno-histoquímica. No lado tratado, os pesquisadores observaram redução do tamanho dos adipócitos, aumento da atividade de macrófagos, maior apoptose celular e modulação do processo inflamatório local.

Ensaios clínicos específicos já em andamento

A boa notícia é que a pesquisa sobre fotobiomodulação no lipedema não parou por aí. Dois ensaios clínicos randomizados, desenhados especificamente para lipedema, já estão registrados no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC):

  • “Effects of infrared and red light therapy on leg pain in patients with mild to moderate Lipedema” (RBR-6dcn292), que avalia o efeito da fototerapia vermelha e infravermelha sobre a dor em membros inferiores de pacientes com lipedema leve a moderado — um desfecho clínico diretamente relevante para quem convive com a condição.
  • “Therapeutic effects of Systemic Photobiomodulation in Lipedema” (RBR-262xftk), um estudo maior, com 60 mulheres divididas em três grupos (fotobiomodulação vermelha a 660 nm, infravermelha a 808 nm e placebo), aplicada de forma sistêmica duas vezes por semana durante quatro semanas.

Ambos os estudos ainda estão em andamento e não publicaram resultados até o momento mas representam um avanço importante, já que respondem diretamente à pergunta que a comunidade médica vem fazendo: a fotobiomodulação realmente funciona no lipedema, e não apenas em condições parecidas?

Fotobiomodulação é indicada para todo caso de lipedema?

Ainda não é possível afirmar isso com a robustez de evidência que uma recomendação clínica definitiva exige. O que existe hoje é um conjunto consistente de plausibilidade biológica, um estudo piloto com achados favoráveis e dois ensaios clínicos específicos em andamento, mas nenhum RCT concluído e publicado até o momento avaliando exclusivamente a fotobiomodulação como tratamento do lipedema. Por isso, a decisão sobre incluir a fotobiomodulação no plano terapêutico deve sempre ser feita em conjunto com um profissional de saúde, que poderá avaliar o estágio do lipedema, os sintomas predominantes e as demais opções terapêuticas disponíveis.

A fotobiomodulação desponta como uma das frentes mais promissoras de pesquisa para o lipedema, sustentada por mecanismos biológicos plausíveis, por um estudo piloto que analisou diretamente o tecido lipedematoso humano e por ensaios clínicos específicos já registrados e em andamento. Ao mesmo tempo, é uma área de conhecimento em construção: os próximos anos, com a conclusão desses estudos, devem trazer respostas mais claras sobre a real eficácia da fotobiomodulação no tratamento do lipedema.

Se você tem lipedema e quer entender se a fotobiomodulação pode fazer sentido no seu caso, converse com um profissional de saúde especializado no acompanhamento da condição.

Perguntas frequentes sobre fotobiomodulação e lipedema

Fotobiomodulação é a mesma coisa que laser de baixa intensidade? Sim. Fotobiomodulação (PBM) é o termo científico atual para o que também é chamado de terapia a laser de baixa intensidade (LLLT) ou terapia de LED, quando usados com finalidade terapêutica e sem efeito térmico significativo.

A fotobiomodulação já tem eficácia comprovada para lipedema? Ainda não. Existem evidências preliminares favoráveis — um estudo piloto com três pacientes e resultados indiretos vindos de pesquisas sobre linfedema —, mas nenhum ensaio clínico específico para lipedema foi concluído e publicado até o momento.

Quais comprimentos de onda de luz são estudados no lipedema? Os estudos em andamento e o estudo piloto utilizam luz vermelha (em torno de 660 nm) e infravermelha próxima (em torno de 808 a 980 nm), que atingem diferentes profundidades no tecido.

A fotobiomodulação pode substituir outros tratamentos do lipedema? Não. Ela deve ser avaliada como uma possível terapia complementar, dentro de um plano de cuidado individualizado, que pode incluir compressão, drenagem linfática, atividade física orientada e, em casos selecionados, lipoaspiração.

Posts Relacionados